Millôr Fernandes, Laerte Coutinho e eu num porão


Blogs já ficaram velhos em face de Tumblr, Face, Tuíter, Pinterest. E eu sou de uma geração pré-blog. O blog na minha época se chamava Fanzine! Não sei porque digo “minha época” como se ela fosse minha ou como se eu estivesse preso a ela. Além do mais escrevo isso num blog. Mas estou divagando, voltemos ao assunto. Em 1986 fui um dos culpados pelo fanzine chamado Porão. Essa aventura durou até 1991. O último número foi esse da foto, sobre a mesa na qual Laerte dava autógrafos. Laerte que era uma das grandes influências do grupo de amigos que amavam quadrinhos, rock, cinema e animação. Pra fazer chegar às mãos das pessoas nossas idéias cheias de audácia e, em geral, vazias de tudo mais, apelávamos pra máquinas de Xerox de papelarias barateiras.  Escrevíamos em máquinas de escrever mecânicas, sem delete ou ctrl+Z, aplicávamos letras e retículas Decadry ou Letraset,  recortávamos e colávamos desenhos, pedaços de revistas e jornais, ainda influenciados pela estética Punk. Tudo isso hoje soa bizarro. E era.

Laerte, cerveja, cigarro e porão. Foto de Octávio Augusto.
Foto do amigo Octávio Prado, que comigo, com o Lucas Chewie e o Renato era co-culpado pelo Porão

Assim como na maioria dos blog hoje em dia, não checávamos fontes, não éramos especialistas no que falávamos e roubávamos conteúdos das fontes que nos caíam em mãos. E dá-lhe recortes de Cadernos do Terceiro Mundo.

O Porão era principalmente de e sobre quadrinhos. Mas era a época “pós-diretas já”, da redemocratização, da construção do mito Lula. Todos tínhamos medo de uma guerra nuclear. Meus professores de história me davam cópias (xerox, de novo e de novo) do Capital de Marx. Era impossível não ser ativista. Ainda mais para jovens que descobriam a liberdade de uma Heavy Metal e dos quadrinhos europeus de Moebius e Druillet ao mesmo tempo que encontravam em sebos o Pasquim, os Fradins e vários registros da luta de nossos artístas gráficos e humoristas contra a ditadura. E nas bancas a Chiclete com Banana. Muita informação sem contexto. Muita informação.

Millôr, que a pouco nos deixou,  foi um dos primeiros que fiz questão de “piratear” nessa época. Colava lá nas páginas mal diagramadas do fanzine, como se fosse uma declaração de princípios ou de intenção, algumas de suas frases e textos memoráveis. E guardava os recortes de suas páginas em revistas e  jornais, suas frases lapidadas por uma inteligência afiada muitas vezes fora de meu alcance, e guardava tudo em arquivos que nunca mais consultava. Mas gostava de saber que estavam ali. Como gostava de saber que o Millôr estava aqui no Rio de Janeiro, guardião de lucidez e humor espantoso, entre nós, mortais menos brilhantes.

Em todas as mídia vejo e ouço comentarem que o Brasil perdeu inteligência com sua partida. Mas o melhor comentário para mim foi o de Sérgio Besserman, o irmão do Bussunda: Vamos ter que nos esforçar pra compensar esta perda.

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