Por um cânone da cultura universal que inclua quadrinhos e videogames


quadrinhos, games, literatura

Assim como há quem se orgulhe de ser nerd – e não me refiro aqui a quem gosta de Star Wars mas a quem entende piadas cuja resposta é π – há pessoas que cultivam deliberadamente a sua sensibilidade e sua cultura de forma abrangente e profunda. No sentido de buscar obras de arte, visuais, musicais e na literatura nas quais possa resgatar sua verdadeira herança, o que herdamos dos gigantes do passado e  torna a nossa vida mais do que meramente suportável.

Sim, a vida se torna melhor ouvindo Beethoven, lendo Tolstoi. Assim como você provavelmente se sentiu mais feliz e instigado ao ler pela primeira vez Watchmen. Bom, eu li com pela primeira vez com 16 anos, mesmo ano em que li Batman – O Cavaleiro das Trevas do Frank Miller, O Nome da Rosa do Humberto Eco e Arzach de Moebius e confesso que me senti incluído no seleto clube dos inteligentes do mundo, tocado na alma por estes autores. Ainda que estivesse redondamente enganado sobre a existência deste clube, foi assim que me senti.

Os que fazem isso bem, cultivar a si mesmos com talento e afinco, e por tempo suficiente são o que chamamos eruditos (os nerds da cultura geral). São os que no meio da miríade irrefreável de obras selecionam o que é relevante, extraordinário e merece ser eternizado, passado obrigatoriamente de geração a geração. O Harold Bloom vai lá e escreve o Cânone da literatura ocidental. O Otto Maria Carpeaux lê tudo que lhe cai no colo em toda língua que existe e organiza pra gente em ensaios e críticas de Cultura. E tem o Samuel Johnson, o T. S. Eliot e tantos outros críticos e filósofos que se dedicam a classificar os saberes para todos nós e que estou aqui para admitir que não li.

Por mais que se tenha que estudar para começar a entender os que nos servem de guia, nem nós nem eles lemos o suficiente, nem compreendemos tudo. Então a alta cultura, como a baixa (se é que estes termos tem ou tiveram alguma serventia) é inventariada de forma incompleta e enviesada. Como tudo mais. É assim meio arbitrário e pessoal mesmo.

Então, depois deste longo prólogo, o que queria dizer afinal é que gostaria que alguém assim talentoso, um verdadeiro erudito estivesse criando um cânone para alguém como eu.

Vou citar meu exemplo pessoal não por que sou um grande exemplo de qualquer coisa mas porque sou um exemplo tão válido como qualquer outro. Eu não curto praia. Nem barzinho. Eu curto e consumo cultura. E não comecei lendo Machado de Assis. Até era obrigatório em minha época de escola mas eu simplesmente passavas os olhos nas páginas com palavras completamente desconhecidas e sem qualquer interesse. Eu comecei lendo mesmo foi o Chris Claremont (X Men em seu melhor período nos anos 80). Eu li Neil Gaiman mais e melhor do que li Shakespeare, Kafka ou Allan Poe. Eu li Frank Miller, Will Eisner e Bill Watterson antes de Dan Brown, John Grisham, Stephen King ou J. K. Rowling. Finalmente acabei lendo Dostoiévski.

Vejo claramente uma escala de valores e não acho que obras de roteiristas de quadrinhos de heróis sejam equiparáveis ou superiores aos clássicos da literatura como Cervantes. O problema é que não são desprezíveis também. Não só existem como tem impacto no imaginário, se mesclam e influenciam a leitura posterior daqueles mesmos clássicos. E estão fora de qualquer cânone. Mero folklore. E o folk é sim depreciativo. O cultura popular de todos os tempos se perpetuou na tradição oral. Chegou até nós incompleta, sempre tratada como menos relevante ou mesmo desprezível. Acontece que o mundo mudou. Há tantas cópias virtuais de Os Vingadores que ele tem mais chance de chegar incólume à posteridade do que algum ensaio de Ralph Waldo Emerson.

Nenhuma seleção vinda dos eruditos do passado bastará aos habitantes deste mundo em expansão e que cria terabytes de informação por segundo, que se habitua a mergulhar nas realidades virtuais arrebatadoras dos videogames. Se antes havia tanta obra que só um gênio como Otto conseguia abranger, hoje ele jogaria a toalha e seria um especialista em um assunto (ou dois, vai) e olhe lá.

Quem será o Harold Bloom 2.0?

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